A Pomba-Gira de ExúManolo era uma pessoa completamente cética. Para ele, todas as religiões não passavam de "crendice", e Manolo não fazia a menor questão de esconder seu desprezo pelas pessoas que acreditavam em coisas esotéricas e espirituais. Como todo bom italiano, Manolo era falante, fogoso e fanfarrão. Defendia fervorosamente que ele era o detentor da verdade absoluta e que qualquer opinião que não fosse a dele, deveria ser ignorada imediatamente (qualquer semelhança com o autor é mera coincidência). Certa noite, no "Bar do Seu Zequinha", Manolo e seus amigos entraram numa discussão séria. Seria assunto para a noite inteira se Marilone, um dos amigos de Manolo, para dar fim àquela "briga", não desafiasse Manolo em uma aposta: _Manolo!! Se o TUPI não subir para a segunda divisão,
você vai até o Terreiro do Pai Tumé comigo assistir à
uma sessão de Umbanda!! Disse Marilone peremptoriamente.
Dito e feito, o TUPI perdeu dois jogos em casa e um fora, ficando em último lugar no "quadrangular decisivo". Manolo perdera a aposta.
_Sim! Eu sou um homem de palavra. Eu irei com
você. Falou o aborrecido Manolo. Como o leitor deve saber, existe um sincretismo religioso muito grande entre as religiões afro-brasileiras. Práticas da Uganda, Macumba, Candomblé e Quimbanda, se misturam com o catolicismo e Espiritismo aparentemente sem nenhum critério, variando apenas de região para região. Portanto, não existe um dogma fixo para a realização das giras, podendo apresentar grandes diferenças de um Terreiro para outro. Ao chegarem, os dois notaram uma aglomeração de pessoas próximas ao Terreiro. A gira estava para começar.
_As giras ou sessões de Umbanda são realizadas uma vez
por semana, cultua-se espíritos de uma determinada falange
havendo portanto quatro sessões mensais. Falou Marilone
ao incrédulo amigo. Nesse momento, a cerimônia teve o seu início. A sessão começou com a defumação do Templo; médiuns se colocaram defronte ao altar principal. De um lado os homens, do outro as mulheres. Abaixo das imagens, entre as quais a de Cristo, a da Virgem Maria e a de São Jorge (isso surpreendeu Manolo), se postaram ao babalorixá (Pai-de-Santo): o "Pai Tumé", e a ialorixá (Mãe-de-Santo): Dona Dodora. Efetuado o sermão introdutório, começou a cerimônia denominada bater cabeças. Sempre cantando pontos (cantigas) em louvor aos orixás, os médiuns "tacavam" a cabeça nos pés do Pai Tumé e da Mãe-de-Santo; estes, por seu turno, "tacavam" com a cabeça nos pés das imagens. Manolo quase teve uma acesso de riso, mas foi reprimido por Marilone.
_Fica quieto! Senão pode baixar um orixá em
você!! Falou Marilone. A seguir, ao som dos atabaques, os médiuns começaram a montar nos Cavalos-de-Santo (os fiéis que receberiam o orixás ficavam de quatro). Manolo não concordou com que "montassem" nele, pois ele era apenas um visitante e não queria bolar para o santo. Os médiuns traziam vestes muito brancas e guias ou colares característicos de seus orixás: em caso de baixar um caboclo (espírito de índio), o médium trará um cocar de penas e um charuto nos lábios; se descer um preto velho (espírito de escravo), o fiel usará chapéu de palha, cachimbo e bengala; se a entidade for Exú ou sua forma feminina, Pomba-Gira, teremos cigarro ou charuto, capa preta e vermelha e uma garrafa de aguardente.
_O que acontece quando uma dessas entidades baixam?
Manolo perguntou ao amigo. Enquanto os atabaques faziam a festa, algo completamente inesperado aconteceu. Manolo começou a tremer, a balançar o corpo, a se contorcer pelo chão.
_Nossa Senhora! O abiã está bolando para o
santo disse um dos médiuns ao ver o novato rolando
no chão. Burro é o nome dado ao possuído quando incorporado por Exú. _Pior!! É POMBA-GIRA!!!! Gritou Marilone. Um espanto tomou conta do Templo, já que é de vontade dos dirigentes da Umbanda que Exú seja suprimido das giras pois se trata de uma entidade muito travessa, que toma conta da cerimônia e fecha o altar dos orixás brancos. Quando a Pomba-Gira aparece, a cerimônia vira um pandemônio. Vale avisar que somente o Exú batizado baixa em Terreiro de Umbanda, os pagãos ou maus só aparecem nas Quimbandas ou Macumbas. Manolo gritava e dançava quando começou a tirar a roupa com o ritmo dos atabaques. O Pai Tumé se levantou e se aproximou da Pomba-Gira.
_Ô compadre!! O quê que vosmicê quer pra
voltar? Perguntou o Pai Tumé procurando tirar o doutor
do corpo do abiã. A congregação ficou desesperada pois eles já esperavam por isso. Marilone ficou preocupado com Manolo, pois teve medo que o Pai Tumé quisesse que Manolo virasse para o santo, ou seja, ficar preso na criadeira com os cabelos completamente raspados.
_Pega o bode e a pinga! Isso só pode ser mandinga
de Macumbeiro! Gritou o Pai Tumé para um dos pequenos cambonos
(filhos-de-santo) enquanto pegava alguns ramos de arruda
no altar principal. Enquanto os fiéis faziam uma roda em torno da Pomba-Gira que não parava de dançar, os atabaques entravam em ritmo alucinante. O Pai Tumé temia perder o controle pois parte dos médiuns já acompanhavam a dança da entidade. Uma arruaça tomou conta do Templo. Os pontos cantados, as batucadase a dança envolviam o recinto como uma onda de misticismo característicos das sessões dos orixás. O Pai Tumé sinalizou para Marilone que corresse em direção à porta lateral do Templo e pegasse o copo de "água benta das almas" para jogar em Manolo, ou melhor, na Pomba-Gira. No momento em que a congregação inteira dançava em torno de Exú, dois filhos-de-santo seguraram a Pomba-Gira enquanto o Pai Tumé começou a lavar o possuído com as ervas, Marilone então o molhou com a água. A Pomba-Gira parou e caiu no chão quando viu o bode e a cachaça na mão do menino que entrara correndo no Terreiro. Um silêncio sepulcral reinou no Templo, os atabaques se calaram e a congregação ficou imóvel. Manolo começou a se levantar tonto e sem entender o que havia acontecido.
_Quê porra é essa?! O que esses mal acabados fizeram
comigo?! Perguntou ao amigo quando viu que estava
exausto, molhado e cheio de ramos de arruda no corpo. Manolo nem teve tempo de
absorver o que ouvira, pois uma sirene e luzes vermelhas
anunciavam que a Polícia estava chegando. Foi uma
correria para todos os lados, todos que estavam no
Terreiro saíram pelo quintal pulando os muros e se
embrenhando no matagal. Marilone, que já estava
acostumado de correr da Polícia, pegou Manolo pelo
braço e o arrastou pelo matagal. A Polícia assim que
entrou no Terreiro encontraram apenas um bode preto
comendo ervas de arruda.
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