Revista da Folha - 17 de Junho de 2001
A fantasma que não saiu na Folha
por Ricardo Bonalume Neto
É bem provável
que você tenha entre suas fotografias uma em que apareça um fantasma ou quem
sabe um disco voador. Eu tenho várias fotos assim.
Não, você não leu errado, eu continuo sendo o tal "cético" como
diz aí em cima. É que pessoas que acreditam em fantasmas e em ETs costumam
apresentar como "provas" da existência desses seres qualquer mancha,
luz ou borrão em uma fotografia ou vídeo. Nem é preciso ir mais longe e
falsificar uma foto com um programa de computador. Basta aquele pontinho de luz
no ponto certo para virar uma "aura" ou uma "sonda ufológica".
Isso acontece porque as pessoas são naturalmente crédulas e porque os sentidos
podem enganar. Quem nunca viu uma ilusão de ótica? Se guiar apenas pelos
sentidos pode ser perigoso.
Fantasmas estão entre as alucinações mais antigas. Alguns até têm alguma
nobreza literária, como o do pai do Hamlet.
Com a invenção da fotografia começaram as trucagens, a princípio bem
rasteiras. Mas não era preciso muito para convencer alguém, pois se as fotos
eram mal retocadas, também havia menos conhecimento da população sobre
fotografia.
Uma leitora de 13 anos, Larissa Maria Prodocimo, me mandou uma mensagem sobre o
tema (por sinal, muito bem escrita; bem que eu gostaria de escrever assim quando
tinha 13 anos. Recebo às vezes e-mails indecifráveis de pessoas mais velhas).
Ela e os colegas têm aula de informática toda sexta-feira. O professor, na
aula do dia 8 passado, liberou a turma para passear na internet. Aconteceu o
inevitável: um garoto foi até um site imbecilizante, o "Vim Te
Buscar" (http://www.20buscar.hpg.com.br/).
"Há fotos de anomalias, suicídios, mortes, acidentes, corpos mutilados,
fantasmas, espíritos e outras coisas de 'bom gosto'", ironiza Larissa. Fui
checar o tamanho da besteira. Achei uma curiosa foto de uma suposta
menina-fantasma que me chamou a atenção, por citar esta Folha de S.Paulo.
Veja o texto exatamente como está no site: "O fotógrafo que tirou a foto
resolveu enviá-la para estudos; Um fotógrafo ficou louco tentando estudar a
foto por muito tempo; O jornal Folha de S.Paulo (sic) tentou imprimir
para utilizá-la em uma reportagem, nada saiu além de um corredor com uma
figura borrada e irreconhecível; Fotógrafos especialistas dizem que é um caso
raro de fotespelhotefacto onde, dependendo do foco, torna disforme outras partes
da foto; Parapsicólogos dizem que é um caso (que nem é muito raro) de Foto da
Além Vida, onde podemos ver claramente a forma ainda viva de um espectro
(fantasmas para nós leigos)".
Gostaram da besteira? Pois tem mais:
"Ninguém sabe ao certo o que é verdade (nem mesmo a procedência exata da
foto, sendo que o fotógrafo que a enviou preferiu ficar no anonimato), mas também
é fato que após o ocorrido no jornal Folha de SP (sic) a foto tem sido
difundida e muitas outras pessoas criarão outras estórias sobre ela, porém os
parapsicólogos advertem pois acreditam que a energia carregada nesta foto traz
juntamente a energia da menina que ainda não desencarnou e isso pode trazer vários
fenômenos anamnésicos e materiais às pessoas e aos lugares onde está sendo
observada (e isso explica as advertências no início da página)."
A Folha nunca tentou publicar essa foto até agora (pedi ao colega
Matangra para incluí-la na ilustração de hoje da coluna).
OK, leitor ou leitora, você deve achar que eu estou perdendo o meu espaço e o
seu tempo com uma bobagem ou brincadeira. Mas a coisa vai mais além, pois serve
de boa ilustração para o jeito místico-amalucado de ver o mundo. Vamos pôr
de lado a bobagem em si. O que sobra? Nada. Tudo é "argumentado"
daquela maneira típica das picaretagens, sem dar nomes, sem citar fontes, sem
apresentar dados que permitam uma avaliação independente. "Parapsicólogos
dizem"; "Fotógrafos especialistas dizem"; "Um fotógrafo
ficou louco". Quem são essas pessoas, afinal? Quem tentou publicar esta
foto na Folha antes de mim?
Quando alguém lhe contar uma história cabeluda sem dar o CIC e o RG da fonte,
desconfie.
e-mail: bonalume@uol.com.br
URL: http://www.uol.com.br/revista/rf1706200112.htm